Avelar e os desafios de um motoboy e músico

by • 9 de Março de 2014 • Destaques, textosComments (3)1203

Um contrabaixo acústico possui um som extremamente grave e uma estrutura alta com 1,80 de altura aproximadamente. Com essas características,deve ser bastante incomodo carregá-lo pelos seus quase 30 quilos. Já, o contrabaixo elétrico não é tão alto, mas um instrumento razoavelmente pesado, por causa de seu corpo maciço.

Logo, para o contrabaixista, compositor e produtor Márcio Avelar, não era difícil carregar um contrabaixo elétrico na moto e  oferecia carona para outro músico com vários instrumentos a tira colo. Ou seja, pessoas a serviço da música numa viagem a  duas rodas.

Já,  o contrabaixo  acústico, Márcio transportava de ônibus. Seu instrumento era um com corpo  3/4, uma medida menor,mas alto como um com as medidas padronizadas.”Por várias vezes, o cobrador queria cobrar outra passagem, só por causa do meu instrumento, que é bem grande.”, diz.

Márcio era motoboy, acordava às 04h30 da manhã de segunda a sexta-feira para estudar. Era seu único horário disponível para treinar seu instrumento.Mesmo com a flexibilidade de horários em seu trabalho, ele aproveitava o tempo livre para estudar música e fez aulas com o guitarrista Aldo Landi.

No primeiro encontro com Landi, todo o aluno passa por uma “entrevista”, uma conversinha básica, sobre o motivo da escolha em estudar música. Daí, surge a “pergunta-chave”,para o contrabaixista,  que desanimaria e seria um “balde de água fria” pra quem está interessado em aprender música: ” Por que você quer ser músico, se é motoboy , trabalha pra caramba e não tem muito tempo?”.Logo, a resposta de Avelar foi direta: “Ser músico é que o eu quero para a minha vida, independente do que estiver por vir”.

O contrabaixista arrumava um tempinho durante as suas manhãs para ensaiar com um quarteto de bossa nova. “Perdia umas horas de trampo e dinheiro. Como não tinha grana para comprar um acústico, esse quarteto foi a minha ‘salvação’ para adquirir um contrabaixo acústico”, diz.

Márcio conta que uma vez surgiu a primeira oportunidade de fazer uma apresentação no SESC Pompeia no começo de um dos grupos de bossa nova. Durante o caminho, o freio da sua motocicleta estourou na Via Dutra  e o contrabaixista e mais o guitarrista, que estava na garupa, ficaram no meio do caminho com todos os instrumentos. Logo, o carona disse: “Ferrou!”. Imediatamente , Avelar retrucou: “Ferrou o c…! Vamos sim, é SESC!”.

MarcioAvelar3Um desafio para quem saiu da periferia de Guarulhos em direção ao SESC Pompeia, sem freio e na cara e coragem. Márcio descreve que esse dia estava congelante, aquele frio de rachar. Mas foi uma apresentação maravilhosa e uma sensação imensa de trabalho realizado com muito afinco.

Avelar nunca caiu de moto com os seus instrumentos. Mas já caiu durante o trabalho. O contrabaixista conta que perdeu muitos amigos motoboys em acidentes de trânsito. “Profissão sofrida e muito marginalizada. Imagina os parentes da minha esposa fazendo as tais perguntas: Você é músico? Sim. Mas trabalha do quê? ( a pergunta clássica) Motoboy. Ah, não pensa em estudar?”, diz.

O contrabaixista conta sobre a dificuldade em conciliar os horários. As vezes saia mais cedo ou chegar mais tarde. “Uma vez entrei numa empresa onde os chefes compreendiam e respeitavam por ser músico. Nessa época eu podia viajar, chegar mais tarde,desde que eles fossem avisados com uma certa antecedência.”, diz.

Já , em outras empresas,Avelar  tinha que arrumar atestados médicos e criar situações para participar de gravações em estúdios. Em uma vez, quando participava de um grupo de música pop, que tocava de tudo, teve uma gravação no Estúdio Zabumba e as mixagens eram feitas durante a tarde. Márcio teve a ideia de chegar no trabalho e simular uma dor de estômago, onde os próprios chefes o aconselharam a procurar um médico.

Márcio procurou um médico. Antes, ele tinha um plano: “Ah, vou tomar um buscopan  e já era!…” .Logo, ao chegar na clínica foi bem diferente: exames, muitos exames….quatro injeções. Logo, o contrabaixista, deu um jeitinho e foi para o estúdio mixar as música para preparar um CD demo para entregar nas casas onde faziam apresentações.

Avelar tem a moto até hoje. “Não me desfaço dela. Tenho orgulho em ser motoboy”, diz. Com o capacete surrado, os contrabaixos,atualmenmte é analista financeiro e  prepara-se para apenas viver de música. O contrabaixista conta que sobre o preconceito que sofria da parte de um gerente da empresa quando não acreditava no seu conhecimento,  especialmente em gostar de jazz, ser músico e estudar.

Márcio respondeu imediatamente ao seu chefe:” O motoboy é um sujeito privilegiado, ele transita entre diretores de empresa, dentro da fábrica, está nas ruas, passando por várias experiências”,diz e fazia questão de aproveitar as “janelas” para ir a uma biblioteca ou centro de cultura para se atualizar e buscar mais informações.

Avelar gravou um CD instrumental com recursos do FUNCULTURA, Fundo Municipal de Cultura da Cidade de Guarulhos , produziu o trabalho regionalista de Orlando Alvorada e atuou em uma produção  com foco na inclusão social.

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